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» O Paciente Otimamente Controlado
 : Capítulo I - Noções Gerais :
Conceito

Não há uma definição completamente satisfatória de epilepsia. Epilepsia não é, naturalmente, uma doença específica, ou mesmo uma única síndrome. Sob essa denominação, compreende-se ampla categoria de sintomas complexos decorrentes de funções cerebrais alteradas, que podem ser secundárias a um grande número de processos patológicos.

Admite-se epilepsia como um grupo de doenças que têm em comum crises epilépticas que recorrem na ausência de condição tóxico-metabólica ou febril. Crises epilépticas são eventos clínicos que refletem disfunção temporária de um conjunto de neurônios de parte do encéfalo (crises focais) ou de área mais extensa envolvendo os dois hemisférios cerebrais (crises generalizadas). A crise epiléptica é causada por descarga elétrica anormal excessiva e transitória das células nervosas, decorrente de correntes elétricas que são fruto da movimentação iônica através da membrana celular. Crises epilépticas são sintomas comuns de doenças neurológicas agudas (tais como meningoencefalite, trauma cranioencefálico, doenças cerebrovasculares) ou doenças clínicas (tais como anóxia, estado hipoglicêmico, insuficiência renal e hepática). Essas circunstâncias agudas, entretanto, não constituem epilepsia.

Incidência e Prevalência

Epilepsia é o distúrbio sério do cérebro mais comum em todo o mundo. É, possivelmente, a mais universal de todas as entidades médicas. Aproximadamente 100 milhões de pessoas terão epilepsia em algum momento de suas vidas e 5% da humanidade terão pelo menos uma crise epiléptica durante a vida (o que também não é epilepsia).

Estima-se que a prevalência esteja por volta de 2% nos países em desenvolvimento, o que nos faz supor que existam mais de 3 milhões de brasileiros com epilepsia.

Nos países desenvolvidos, espera-se que 1% da população desenvolva epilepsia até os 20 anos de idade. Mais de 3% da população deverá ter epilepsia aos 80 anos. Nesses países, a tendência dos últimos anos sugere que a freqüência dos casos novos em crianças diminua e na população idosa aumente.

Epilepsia ocorre principalmente nos extremos de faixa etária, acometendo mais as crianças (particularmente abaixo de 2 anos de idade) e os idosos (mais de 65 anos). Os homens são 1,1 a 1,7 vezes mais acometidos que as mulheres nas epilepsias recém-diagnosticadas.

A taxa de incidência de epilepsia é variada na literatura, indo de 11 a 131 por 100.000 pessoas por ano e a prevalência de 1,5 a 30 por 1000. Nos Estados Unidos, a prevalência de epilepsia é maior na população não branca, embora não esteja claro se essa diferença decorra de fatores raciais ou socioeconômicos ou de ambos.

Em nosso meio, Marino e col. encontraram prevalência na grande São Paulo de 11,9 por 1000 e Fernandes e col. determinaram a prevalência de 16,5 e 20,3 por 1000, respectivamente, para epilepsia ativa e inativa em Porto Alegre.

Classificação das Crises Epilépticas e das Epilepsias

Resumo da Classificação das Crises Epilépticas segundo a Liga Internacional de Epilepsia (Commission, 1981):

Crises parciais são aquelas nas quais, em geral, as primeiras manifestações clínicas e eletrencefalográficas indicam ativação de um sistema neuronal limitado a parte de um hemisfério cerebral. Na classificação das crises epilépticas, a consciência é entendida como a capacidade de responsividade e percepção consciente. Quando está alterada, diz-se que há comprometimento da consciência. O que distingue a crise parcial simples da complexa é o comprometimento da consciência na última. Na crise parcial complexa, admite-se o envolvimento hemisférico bilateral, principalmente das estruturas mesiais temporais durante o período de alteração da consciência. Na Tabela I, temos uma versão resumida da classificação das crises.

Tabela I - Classificação das Crises Epilépticas

1. Crises Parciais (ou focais)

Crises parciais simples (CPS)

• com sinais motores
• com sinais sensitivos somatossensoriais ou especiais
• com sinais ou sintomas autonômicos
• com sintomas psíquicos.

Crises parciais complexas (CPC)

• início de crise parcial simples seguida por alteração da consciência
• alteração de consciência no início

Crises secundariamente generalizadas

• CPS evoluindo para crises tônico-clônicas generalizadas (CTCG)
• CPC evoluindo para CTCG
• CPS evoluindo para CPC e então para CTCG.

2. Crises Generalizadas (desde o início)


CTCG Crises de ausência
Crises de ausência atípica
Crises mioclônicas
Crises tônicas
Crises clônicas
Crises atônicas.

3. Crises não classificáveis (informações incompletas ou inadequadas)

Resumo da Classificação das Epilepsias e Síndromes Epilépticas (Commission, 1989, Tabela II):

A classificação das epilepsias é baseada nas semelhanças em relação ao tipo de crise, idade de início, sinais clínicos ou neurológicos associados, história familiar, achados eletrencefalográficos e prognóstico. A maioria das síndromes epilépticas, entretanto, não tem necessariamente causas comuns. Para o conhecimento dessa classificação é importante a familiarização com os termos idiopático, sintomático e criptogênico. Idiopáticas são as epilepsias transmitidas geneticamente, com maior expressão em determinadas faixas etárias. Sintomáticas são as epilepsias cujas etiologias são identificadas. Criptogênicas são as epilepsias de presumível base orgânica, sem que se esclareça a etiologia. Nos últimos anos, a melhor caracterização clínico-vídeo-eletrencefalográfica e o conhecimento da história natural das muitas formas clínicas têm permitido a identificação de determinadas síndromes e subsíndromes, tais como a epilepsia de lobo temporal, frontal, parietal e occipital.

Tabela II - Classificação Internacional das Epilepsias e Síndromes Epilépticas e Condições Relacionadas


1. Síndromes e Epilepsias Localizadas (locais, focais e parciais)

1.1 Idiopática (com início relacionado à idade)


Epilepsia benigna da infância com espícula centro-temporal
Epilepsia da infância com paroxismos occipitais
Epilepsia primária da leitura.


1.2 Sintomática

Epilepsia parcial contínua progressiva crônica
Síndromes com quadros específicos de manifestação
• Epilepsia lobo temporal
• Epilepsia lobo frontal
• Epilepsia lobo parietal
• Epilepsia lobo occipital.


1.3 Criptogênica


2. Síndromes e Epilepsias Generalizadas

2.1 Idiopática (com início relacionado à idade)

Convulsão familiar neonatal benigna
Convulsão neonatal benigna
Epilepsia mioclônica benigna do lactente
Epilepsia ausência da infância
Epilepsia ausência juvenil
Epilepsia mioclônica juvenil
Epilepsia com crises tônico-clônicas ao despertar
Outras epilepsias idiopáticas generalizadas
Epilepsias desencadeadas por modos específicos de ativação.


2.2 Criptogênica ou Sintomática

Síndrome de West
Síndrome de Lennox-Gastaut
Epilepsia mioclônico-astática
Epilepsia com ausências mioclônicas.


Sintomática 2.2.1

Etiologia inespecífica


Encefalopatia mioclônica precoce
Encefalopatia epiléptica infantil precoce com surto-supressão
Outras epilepsias generalizadas sintomáticas.


2.3.2. Síndromes específicas

Crises epilépticas complicando outras doenças.


3. Síndromes e Epilepsias Indeterminadas se Focais ou Generalizadas

3.1 Com Crises Focais e Generalizadas Crises neonatais

Epilepsia mioclônica grave do lactente
Epilepsia com espícula-onda lenta contínua durante sono lento
Afasia epiléptica adquirida
Outras epilepsias indeterminadas.


3.2 Sem Inequívocas Características Focais ou Generalizadas


4. Síndromes Especiais

4.1 Crises Circunstanciais


Convulsões febris
Crises isoladas ou estado de mal isolado
Crises que ocorrem somente em evento tóxico ou metabólico.


Abordaremos em detalhe a epilepsia de lobo temporal (ELT).

Trata-se da forma mais freqüente de epilepsia em adultos e uma das mais comumente refratárias à medicação. Aproximadamente metade dos pacientes epilépticos adultos têm ELT e o controle completo das crises com tratamento clínico ocorre em menos de 50% desses pacientes.

De maneira geral, a ELT se caracteriza por crises parciais simples e complexas recorrentes, e em aproximadamente metade dos pacientes se acompanha de generalização secundária (crises tônico-clônicas).

Os principais sintomas são gerados predominantemente pelo acometimento de estruturas mesiais do lobo temporal (Tabela III), sendo a forma mais comum de ELT.



Prognóstico

Prognóstico em epilepsia pode ser definido como a probabilidade de o paciente entrar num período de remissão das crises. Remissão completa das crises é a meta principal, tanto para o paciente como para o médico.

Para se estabelecer o prognóstico das epilepsias é importante observar que a análise de diferentes grupos de pacientes leva a conclusões muito diversas. Os primeiros estudos até 1968 mostraram, baseados em casuísticas de pacientes de clínicas hospitalares, que aproximadamente um terço dos pacientes ficavam livres de crises por um período de dois a quatro anos. Estudos posteriores (após 1968) mostraram a remissão de crises em aproximadamente dois terços dos pacientes, principalmente nos estudos em que a população estudada era da comunidade e não de clínicas hospitalares. Quatro desses estudos mostraram remissão das crises em respectivamente 70%, 70%, 75% e 68% dos pacientes. Um dos estudos foi prospectivo e mostrou que 86% de 564 pacientes com epilepsia tiveram remissão por três anos e 68% por cinco anos.

Portanto, esses estudos mostram que a maioria dos pacientes com epilepsia tem um prognóstico bom ou excelente a longo prazo.


Tabela III - A síndrome da epilepsia mesial de lobo temporal



HISTÓRIA

- Maior incidência de convulsões febris complicadas do que outros tipos de epilepsia.
- História familiar de epilepsia é comum.
- Início no final da segunda metade da primeira década de vida.
- A aura que ocorre isoladamente é comum.
- Crises secundariamente generalizadas são raras.
- As crises apresentam remissão por vários anos até a adolescência ou o início da idade adulta.
- As crises freqüentemente tornam-se intratáveis a medicamentos.
- Distúrbios comportamentais interictais podem surgir, principalmente depressão.


CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS DAS CRISES

- A aura geralmente está presente. A mais comum é epigástrica, ocorrendo com outros sintomas autonômicos ou psíquicos, inclusive emoção (ex., medo). Sensações olfatórias ou gustativas podem ocorrer. A aura geralmente dura vários segundos.
- As crises parciais complexas costumam iniciar-se com parada de atividade e olhar fixo; automatismos oroalimentares e complexos são comuns. A postura anormal de um membro superior pode ocorrer contralateral à descarga ictal. A crise geralmente dura de 1 a 2 minutos.
- A fase pós-ictal inclui desorientação, déficit de memória recente, amnésia do evento e afasia, se as crises começam no hemisfério dominante. Essa fase dura vários minutos.


DADOS NEUROLÓGICOS E LABORATORIAIS

- O exame neurológico costuma ser normal, exceto pelo déficit de memória. - Espículas uni ou bilaterais, independentes, na região temporal anterior com máxima amplitude nos eletrodos basais.
- Atividade eletrencefalográfica ictal de escalpo somente com sintomas de crises parciais complexas; comumente, há padrão inicial ou mantido de ritmo focal de 5 a 7 por segundo, com amplitude máxima em uma derivação temporal basal.

Modificado de Engel (1993)


Fatores Prognósticos

Tipos de epilepsia

O prognóstico das epilepsias evidentemente depende da síndrome epiléptica. Sabemos que o prognóstico da epilepsia com foco rolândico é excelente, com remissão espontânea na adolescência. Sabemos ainda que as epilepsias idiopáticas, sejam generalizadas ou focais, têm bom prognóstico com relação ao controle das crises. Mais difícil é prever o prognóstico das epilepsias sintomáticas ou criptogênicas.

• Etiologia

Crises associadas a lesão adquirida pós-natal do sistema nervoso central apresentam maior probabilidade de recorrência que as crises em que a causa não é determinada. Annegers e col. (1979) relataram que a probabilidade de alguém ficar 5 anos livre de crises depois de 20 anos foi de 74% para pacientes com epilepsias idiopáticas, comparadas com menor índice nas epilepsias sintomáticas. Pacientes com disfunções neurológicas ao nascimento conseguiram remissão em 46% após 20 anos. A maioria dos estudos mostra que o controle das crises é obtido em número menor de pacientes com significativos distúrbios neurológicos ou psiquiátricos.

• Tipos de crise

Como o tipo de crise está geralmente ligado à etiologia, não costuma ser um bom parâmetro para o prognóstico. De modo geral, há uma leve tendência de o prognóstico ser pior em pacientes com crises parciais. Curiosamente, Shafer e col. não encontraram, em Rochester, prognósticos diferentes para os pacientes com crises parciais complexas em relação a outros tipos de crises.

EEG

É controverso. Correlaciona-se com a etiologia e com outros fatores, tais como idade e freqüência das crises, e deve ser encarado como uma medida indireta do prognóstico.

Epilepsia recém-diagnosticada

Em geral tem melhor prognóstico, com taxa de controle de crises em um ano de 58 a 95%, sendo a maioria entre 65% e 80%. O tipo de crise é um bom fator preditivo do prognóstico no tocante ao controle das crises. Mattson e col. encontraram controle de 16%-43% dos pacientes com crises parciais complexas e de 48%-53% das crises secundariamente generalizadas. Dez anos depois do diagnóstico, 65% dos pacientes estavam em remissão de suas crises e 15 anos após, 76%. Cockerell e col. (1994) seguindo 792 pacientes encontraram que 71% ficaram livres de crises por cinco anos, num seguimento de 9 anos.

• Epilepsia crônica

Somente 20% dos pacientes com epilepsia crônica ficam livres de crises. Algumas síndromes epilépticas têm prognóstico sabidamente reservado: convulsões neonatais, síndrome de West, síndrome de Lennox-Gastaut, epilepsia mioclônica grave da infância, epilepsia parcial contínua (atualmente há muitas formas reconhecidas, como encefalite de Rasmussen), epilepsia mioclônica progressiva, epilepsias associadas a déficits neurológicos desde o nascimento (síndrome de Sturge-Weber, esclerose tuberosa, malformações, paralisia cerebral e distúrbios graves do desenvolvimento cerebral e como distúrbios de migração neuronal, ou melhor, malformações do desenvolvimento cortical).

• Prognóstico bom ou excelente

Corresponde a 50%-70% dos pacientes com epilepsia. Vinte por cento a 30% são pessoas que apresentam crises ou síndromes benignas e autolimitadas. Geralmente ocorrem poucas crises e há remissão espontânea. Incluem-se aqui as convulsões neonatais benignas, as crises do quinto dia, as epilepsias parciais benignas, a epilepsia mioclônica benigna da infância e crises precipitadas de modo específico (crises sintomáticas agudas, crises induzidas por drogas e convulsões febris).

Têm bom prognóstico, ainda, as epilepsias generalizadas idiopáticas (epilepsia ausência infantil, epilepsia com crises tônico-clônicas ao despertar, crises tônico-clônicas generalizadas inespecíficas sem sinais neurológicos ou anormalidade em exames complementares) e algumas epilepsias parciais criptogênicas ou sintomáticas, por exemplo, de etiologia cisticercótica.

Morte Súbita

Pessoas com epilepsia parecem ter um risco aumentado para morte súbita. O risco de morte súbita na população em geral é da ordem de 1 a 2 por 10.000 pessoas por ano. O risco de populações de pessoas com epilepsia (com grande proporção de crises infreqüentes) é de 3 a 15 por 10.000 pessoas por ano. Por outro lado, o risco de populações de pessoas com epilepsia de clínicas especializadas é da ordem de 20-40/10.000 por ano; entre pacientes encaminhados a clínicas de epilepsia é de 50-60/10.000 por ano; entre candidatos cirúrgicos é de 90/10.000 por ano e de pessoas que falharam no tratamento cirúrgico para epilepsia é de 150/10.000 por ano de seguimento. Embora esses dados sugiram que o risco de morte súbita esteja relacionado com a gravidade da epilepsia, parece que a falta de controle das crises ou fatores a ela relacionados estejam mais ligados ao risco de morte súbita.



Referências Consultadas


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