| Introdução
O conceito de qualidade de vida em epilepsia
inclui a percepção individual do paciente
sobre sua própria condição e há evidências
de que o ambiente possa ter uma importante
influência na adaptação e reabilitação das
pessoas com epilepsia, assim como no desenvolvimento
da personalidade.
Epilepsia bem controlada não é sinônimo
de vida social normal. Pacientes controlados
satisfatoriamente podem ter vida social
bem diferente daquela que levam pessoas
da mesma idade, sexo e nível sociocultural
que não têm a doença. Os pacientes com epilepsia
costumam apresentar maior grau de isolamento,
menor número de amigos, taxa de suicídio
cinco vezes maior que a da população em
geral, duas vezes mais desemprego e, entre
aqueles mal controlados, apenas 8% são casados
ou têm relacionamento afetivo estável.
Epilepsia e Direção
de Veículos
A carteira de motorista é importante não
só para manter o trabalho e a vida social,
como para a sensação de independência e
normalidade do indivíduo. Para poder dirigir
veículos o paciente deve ter suas crises
controladas e não ter efeitos adversos que
comprometam seu desempenho, tais como sedação,
alterações de equilíbrio e reflexos.
A maioria dos estados norte-americanos e
países europeus permite que as pessoas com
epilepsia dirijam veículos se estiverem
sem crises e em uso de medicação há pelo
menos 6 meses ou um ano.
A incidência de acidentes com pessoas com
epilepsia bem controlada parece não ser
maior que na população em geral.
A análise da permissão ao paciente para
dirigir veículos automotores é individual
e deve levar em conta muitos elementos,
dentre eles fatores favoráveis como crises
parciais simples que não interfiram na habilidade
motora, crises com auras prolongadas, crises
exclusivamente noturnas, crises com fatores
desencadeantes específicos ou fatores desfavoráveis
tais como não adesão ao tratamento, falta
de credibilidade do paciente, abuso de álcool
ou outras drogas, lesão cerebral e antecedente
de dirigir inadequadamente ou de ter acidentes.
A legislação brasileira, infelizmente, é
ultrapassada e não contempla a direção de
veículos automotores por pacientes com epilepsia
(ativa ou não) ou pessoas que fazem uso
de drogas que agem no sistema nervoso central.
O novo Código Nacional de Trânsito não modificou
tais normas, porém, permitiu que os departamentos
estaduais regulassem alguns aspectos dessa
condição. As recomendações da Associação
Brasileira de Medicina de Tráfego (ABMT,
1991) para o DETRAN de São Paulo são: tempo
mínimo de dois anos sem crises ou crises
exclusivamente em sono, recomendação de
não dirigir à noite nem em estradas de pouco
movimento, e não dirigir por ocasião de
troca ou retirada de medicação. A responsabilidade
das informações é do paciente, cabendo ao
médico a orientação. Na prática, a legislação
não é efetiva e o médico, dentro das suas
claras limitações, desempenha papel determinante
na orientação do paciente.
Epilepsia e Ocupação
Uma ocupação ou um emprego pode ser importante
para a sensação de auto-estima e realização
pessoal, permitindo a independência financeira
e maior contato social.
Algumas pessoas com epilepsia não são capazes
de trabalhar em função das crises. A maioria
dos pacientes, entretanto, tem controle
adequado de suas crises e pode trabalhar
em muitas áreas.
Poucas ocupações são restritas às pessoas
com epilepsia, tais como transporte público
(piloto de avião, maquinista de trem, motorista
de ônibus e de caminhão), bombeiro, policial
ou que o trabalho implique em manipulação
de máquinas perigosas.
Sabe-se que, em países desenvolvidos, a
taxa de desemprego das pessoas com epilepsia
é maior que na população em geral. A situação
torna-se mais complexa considerando-se a
economia recessiva e as altas taxas de desemprego
encontradas atualmente em nosso meio.
Excetuando-se as condições de crises não
controladas, os pacientes devem tentar a
inserção no mercado de trabalho, já que
este é um dos fatores que pode ser essencial
para a integração social, econômica e a
realização pessoal.
Epilepsia e Atividade
Física
A prática esportiva desempenha um papel
fundamental na promoção de uma vida mais
saudável para o paciente com epilepsia e
pode ser vista como um aspecto importante
na sua integração social.
Os médicos assumem posições e condutas variadas,
mas as evidências sugerem que a maioria
dos pacientes com epilepsia se beneficia
do exercício regular. Há pequena evidência
de que os esportes de contato e de colisão
possam aumentar o risco de lesão em pessoas
com epilepsia, contra as muitas evidências
de que limitar a participação de crianças
em atividades esportivas pode trazer importantes
conseqüências psicológicas.
Benefícios da Prática
Esportiva
São inúmeros e bem conhecidos os benefícios
físicos que a prática esportiva traz aos
pacientes portadores de epilepsia, assim
como à população em geral: aumento da capacidade
aeróbica, aumento do trabalho cardíaco,
aumento da massa corpórea, diminuição do
nível plasmático de colesterol, além do
benefício de reduzir a freqüência das crises
epilépticas durante a prática esportiva.
Maiores ainda são os benefícios psicológicos
envolvidos com a prática de atividade física,
principalmente em pacientes epilépticos,
os quais costumam apresentar maior quantidade
de queixas subjetivas como fadiga, problemas
de sono, depressão e ansiedade.
A prática esportiva traz aos pacientes com
epilepsia um ganho de auto-estima e auto-confiança,
maior convívio social, noção de trabalho
de equipe, senso de controle sobre a doença,
redução da ansiedade, da depressão e do
estigma e regularização do sono.
Considerações sobre
as Diversas Práticas Esportivas
A prática esportiva, infelizmente, não é
possível a todos os pacientes com epilepsia,
particularmente aos que sofrem crises graves
e freqüentes com comprometimento neurológico
importante. Quase dois terços dos pacientes
têm doença estável, com crises raras e tratamento
bem adaptado, e os problemas neurológicos
e mentais são mínimos ou inexistentes. Assim,
é principalmente em relação a esse grupo,
isto é, crianças ou adultos com doença estável,
que comentaremos sobre as diversas modalidades
esportivas.
• Natação. A epilepsia comprovadamente é
fator de risco para afogamento. A maioria
dos acidentes fatais em epilépticos ocorre
na água, mais em atividades recreacionais
do que em esportivas. Um estudo retrospectivo
americano de 10 anos, sobre afogamentos,
entre jovens menores de 20 anos mostrou
que epilepsia prévia fazia parte da história
de 7,5% dos indivíduos (risco cerca de 4
vezes maior que o da população em geral).
Visto que a natação tem-se tornado atividade
física popular entre os pacientes com epilepsia
e que as medidas de segurança diminuem drasticamente
o risco de acidentes (89% de todas as vítimas
não tinham supervisão), tornam-se mandatórios
o uso de equipamentos de segurança e a supervisão
adequada, além de alguns autores preconizarem
a proibição da natação competitiva para
crianças.
• Esportes de colisão e contato. Incluem
os esportes de equipe, estando entre os
mais populares. Não há dados que comprovem
que traumas menores de crânio repetidos
causem danos em pacientes epilépticos, e
estudos mostram que a história prévia de
epilepsia não indica predisposição a convulsão
após trauma de crânio.
• Boxe. Alguns autores acreditam que esta
atividade deva ser proibida para qualquer
criança, principalmente as epilépticas,
apesar de não haver dados que mostrem que
atletas epilépticos sofram maior risco.
Estudo realizado entre boxeadores amadores
na Suécia não demonstrou dano cerebral significativo,
ao contrário do já comprovado em boxeadores
profissionais, que vão de leves distúrbios
cognitivos até a síndrome do punch-drunk.
• Esportes motorizados. Esportes sobre rodas
requerem equipamentos de segurança e as
ruas movimentadas devem ser evitadas. Devem
ser liberados para pacientes com doença
controlada e, se não há bom controle ou
se o diagnóstico é recente, essas atividades
devem ser limitadas inicialmente.
• Esportes que envolvam altura. Como essas
atividades podem trazer risco de lesão séria
e óbito, deve ser feita uma avaliação individual
que leve em conta o tipo e a freqüência
das crises e a resposta ao tratamento, principalmente
em relação a hipismo, ciclismo e ginástica
olímpica. O alpinismo e o pára-quedismo
estão formalmente contra-indicados (assim
como o mergulho, já citado), por razões
óbvias.
Tabela III.1 - Contra-indicações de
Atividades Esportivas para Pessoas com
Epilepsia
Absolutas
Vôo, pára-quedismo e asa-delta
Alpinismo e escaladas
Mergulho submarino
Natação competitiva (para crianças).
Relativas
Arco e flecha, arremesso de dardo e
tiro
Ciclismo competitivo para crianças com
ausência Natação, surfe e ginástica
olímpica.
Atividades no gelo e esportes motorizados.
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Esporte e Crianças
São indiscutíveis os benefícios físicos
e psicológicos do esporte para qualquer
indivíduo, principalmente para aqueles em
formação. Seguem-se as recomendações da
Liga Internacional Contra a Epilepsia de
1997:
• A criança deve ser autorizada a participar
de todos os esportes e atividades extracurriculares
da escola. Atividade física regular não
precipita crises;
• Se a criança fica incontinente durante
a crise, deve haver uma troca de roupa na
escola;
• Qualquer criança envolvida em esportes
aquáticos deve ser mantida sob o olhar cuidadoso
de um nadador profissional, não só as epilépticas.
O uso de um colete salva-vidas é prudente.
Fatores importantes são idade da criança,
freqüência das crises e qualidade da supervisão
• Atividades que envolvam altura, como subir
em árvores, requerem bom senso, mesmo que
a criança não tenha epilepsia;
• Esportes sobre rodas (bicicleta, skate
e patins) requerem equipamento de segurança
(capacete, joelheira e cotoveleira) para
qualquer criança, e as ruas movimentadas
devem sempre ser evitadas. Se as crises
não estão bem controladas ou o diagnóstico
é recente, essas atividades devem ser limitadas
inicialmente;
• Os efeitos de exercícios extenuantes (corridas
de longa distância e enduros) raramente
aumentam o risco de crises. Além disso,
durante o treinamento antes da competição,
o indivíduo pode ter o seu risco específico
avaliado;
• O trauma de crânio em esportes de contato
só muito raramente precipita crise;
• Pára-quedismo e mergulho talvez estejam
entre as poucas atividades que devam ser
evitadas.
Exercício e Medicação
Há evidências de que o exercício físico
não altera a metabolização das DAEs, ao
contrário do que se acreditava. Estudo realizado
por Nakken em 1990, em que se monitorou
diariamente os níveis séricos de DAEs (fenobarbital,
fenitoína e carbamazepina) em 21 adultos,
durante quatro semanas de exercício diário,
seguidas de duas semanas sem atividade física,
não encontrou flutuação estatisticamente
significativa de tais níveis séricos.
Apesar dos potenciais efeitos adversos da
terapia medicamentosa, estes não constituem
um risco na prática esportiva, embora não
se possa ignorar que a perda de coordenação
e concentração, o tempo de reação prolongado
e a velocidade diminuída possam afetar o
desempenho.
Ocorrência mais rara, mas que não pode ser
ignorada, é a do uso de esteróides anabolizantes
por atletas, com o intuito de melhorar seu
desempenho. O uso concomitante com DAEs
pode ser perigoso, pois aumenta a metabolização
destas pelo fígado, alterando a eficácia
do tratamento antiepiléptico. Por outro
lado, o uso de anabolizantes deve ser desencorajado,
mesmo em indivíduos não epilépticos, pois
pode levar a uma doença cerebral que eventualmente
desencadeie crises epilépticas.
Morbidade e Mortalidade
Com exceção da natação sem supervisão, considera-se
que o risco de lesão ou morte não seja maior
nos atletas epilépticos, quando comparados
aos não epilépticos.
Quando uma crise provoca ferimentos durante
a prática esportiva, esta é, na maioria
das vezes, uma crise tônico-clônica generalizada.
Os ferimentos são principalmente fraturas
de colo de úmero, trocânter, clavícula,
tornozelo, deslocamento de ombro e bacia
e lesão de cabeça e coluna cervical, no
caso de queda de alturas.
Com relação a morte súbita e atividade física,
também não há evidência de risco aumentado,
pois há um estudo mostrando que a morte
súbita está mais relacionada ao sono que
a outras atividades em pacientes com epilepsia.
Conclusão
Menor número de pessoas com epilepsia pratica
esportes. Freqüentemente são duas as justificativas
para isso. A primeira é que a existência
de epilepsia é prova de um cérebro relativamente
vulnerável, e assim, traumas adicionais
poderiam resultar em desgaste físico do
tecido, levando a agravamento do quadro
de base. A segunda seria um risco aumentado
de crises durante a prática esportiva. Não
há evidências científicas que corroborem
essas informações.
Face aos inúmeros benefícios físicos, psicossociais
e sobre o controle das crises já creditados
ao exercício físico, acreditamos ser aconselhável
o encorajamento do paciente epiléptico à
prática de atividades físicas.
Existem, contudo, contra-indicações absolutas
da prática esportiva para epilépticos, como
pára-quedismo, mergulho, alpinismo e outras
atividades que envolvam risco de vida indubitável,
que não podem ser ignorados. Existem também
contra-indicações relativas, que devem ser
encaradas com bom-senso, avaliando-se os
casos individualmente.
As crianças constituem um grupo especial
no qual a atividade física e esportiva exerce
um papel fundamental na integração social
e no desenvolvimento da personalidade. Restrições
rigorosas quanto à participação em esportes
aos jovens pacientes podem, em nossa opinião,
resultar em prejuízo mais grave que a ocorrência
de uma ou outra crise. O tratamento moderno
para epilepsia está comprometido não só
com a prevenção das crises, mas também,
e não menos importante, com a prevenção
de desajuste social. Felizmente, esse aspecto
está sendo valorizado entre os médicos mais
jovens e especializados, que são mais liberais
quanto à participação em esportes aos jovens
pacientes podem, em nossa opinião, resultar
em prejuízo mais grave que a ocorrência
de uma ou outra crise. O tratamento moderno
para epilepsia está comprometido não só
com a prevenção das crises, mas também,
e não menos importante, com a prevenção
de desajuste social. Felizmente, esse aspecto
está sendo valorizado entre os médicos mais
jovens e especializados, que são mais liberais
quanto à participação em esportes e atividades
escolares.
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