| Informação
É
muito difícil e imprecisa qualquer generalização
sobre uma condição tão abrangente como a
da epilepsia, que se refere a um conjunto
de síndromes com diversas etiologias, evoluções,
tratamentos e prognósticos.
Neste
capítulo, serão consideradas as condições
da maioria das crianças com epilepsia que
vão a escolas comuns e de 75% dos adultos
que podem ter um trabalho regular. Serão
discutidos alguns aspectos que possibilitem
tornar esses pacientes "otimamente controlados".
Apesar
dos grandes avanços nas diversas áreas médicas,
tanto no diagnóstico como no tratamento,
nunca é demais ressaltar o fundamento do
diagnóstico e da experiência clínica na
prática neurológica do paciente com epilepsia.
Uma vez feito o diagnóstico, é muito importante
a comunicação com o paciente e com a família,
no sentido de informá-los e educá-los. Apesar
da preocupação em se divulgar informações
corretas sobre a epilepsia, ainda há grande
desconhecimento leigo e até médico sobre
o assunto.
Numa
condição crônica com o passado de preconceitos
e estigmas sociais das pessoas com epilepsia,
é a educação o fator que pode promover a
diferença entre a boa e a má qualidade de
vida, entre uma vida saudável, independente
e produtiva e uma vida de discriminação
e dificuldades psicossociais.
Já
se disse que o fator institucional isolado
mais importante e com maior impacto na saúde
das pessoas é a comunicação. Isso é particularmente
válido para as doenças e condições crônicas.
As pessoas que interagem com o paciente
podem precisar de informações para reagir
de modo mais aceitável e receptivo ao paciente.
Também é certo que as atitudes da sociedade
parecem estar-se modificando, particularmente
em termos de melhor nível educacional. Algumas
atitudes são mais neutras ou até mais positivas.
Porém, de modo geral, ainda existe preconceito
e estigmatização importantes por parte de
muitas pessoas, médicos e até pelos próprios
pacientes com epilepsia.
Além
disso, a queixa mais freqüentemente dirigida
à classe médica é a falta de atenção, isto
é, de "ouvidos". Se o médico, que evidentemente
tem os seus motivos, tivesse a capacidade
de dar a devida atenção ao paciente e à
família, o número de mal-entendidos diminuiria
significativamente. É surpreendente quão
mal informados são os pacientes, mesmo os
de nível sócio-econômico melhor, que freqüentam
a clínica privada. Não é raro o paciente
desconhecer por completo o seu tipo de crise
ou a síndrome epiléptica, o resultado dos
EEGs, a programação do tratamento e o prognóstico
do seu caso.
A
informação é vital na condução e no tratamento
de casos com as características das epilepsias,
em que o sucesso do tratamento depende da
adesão do paciente e do seu compromisso
para consigo mesmo, para com a família,
para com o médico e a sociedade. A atenção
deve ser individual. Folhetos informativos
podem ajudar o paciente a ter noções gerais
sobre a condição e suas limitações, e também
ajudá-lo a ter dúvidas específicas relacionadas
ao seu estilo de vida e ao seu caso.
Tratamento pelo Médico
ou por Equipe Multidisciplinar
?
No Brasil, o conceito de equipe multidisciplinar
na atenção ao paciente epiléptico parece
mais voltado aos pacientes de difícil controle,
que estão sendo avaliados para a cirurgia
de epilepsia, do que aos pacientes de "fácil
controle". Mesmo em países desenvolvidos
e socializados (sem a preocupação econômica
direta dos atos médicos) e com a saúde em
bom nível, não está claro se o paciente
deve ser cuidado apenas pelo seu médico
ou por toda uma equipe multidisciplinar
(Comprehensive Epilepsy Program).
Em nosso meio, essa questão perde o sentido
pela falta dessas equipes para a maioria
da população. Todavia, com a existência
de maior contingente de profissionais treinados
na área, os pacientes serão, no futuro,
cuidados por equipes multidisciplinares
compostas por médicos, psicólogos, psiquiatras,
enfermeiros e assistentes sociais.
Distúrbio Primário e Secundário
A verdadeira "arte"
de tratar a epilepsia consiste não apenas
em medicar adequadamente com DAEs eficientes
e em manter o paciente sem crises e sem
efeitos colaterais, mas também em "controlar"
a situação do indivíduo, da família e das
pessoas de sua relação próxima.
Um dos aspectos
fundamentais do tratamento é tentar eliminar
o distúrbio primário (primary handicaps
ou primary disability), o que acontece
com a crise: perda de consciência, confusão
pós-ictal ou cefaléia. Além do distúrbio
primário, o tratamento visa impedir o distúrbio
secundário (secondary handicaps ou secondary
disability), por exemplo, quebrar um
braço ou o indivíduo ficar sonolento ou
desequilibrado por níveis altos de anticonvulsivantes.
O isolamento social é o distúrbio secundário
mais importante apresentado por pessoas
com epilepsia. Isso pode causar um distúrbio
de comportamento e de auto-estima.
É fundamental que
o diagnóstico leve o paciente a entender
a condição e as possíveis repercussões da
doença em sua vida. Muitas pessoas negam
o diagnóstico e com isso fogem de questões
centrais e do tratamento adequado. Outros
adoecem e passam a supervalorizar a "tragédia"
pessoal.
É necessário dimensionar
adequadamente a condição e controlar as
crises e, com isso, os distúrbios primários
e secundários, o impacto das crises na autoimagem,
na família, no emprego, na escola, na direção
de veículos e em muitos outros aspectos
da vida moderna, alguns discutidos nesta
monografia. Esta tarefa é claramente dependente
de múltiplos profissionais.
É importante reconhecer
as "perdas" que o paciente pode ter com
o diagnóstico, apontar a seriedade da situação
e mostrar que as condições melhorarão com
o seu interesse e esforço.
Não se deve incentivar
a dependência do paciente nem a culpa dos
pais. A pessoa não pode pensar que está
fadada a ter para o resto da vida uma condição
crônica e de dependência. Infelizmente,
as nossas sociedades médicas e leigas ainda
não estão maduras para desempenhar papel
de peso na orientação dos pacientes e familiares.
Também, poucos são os grupos de auto-ajuda
disponíveis.
É necessário que
os profissionais de saúde tenham uma visão
otimista da condição e da vida. Finalmente,
deve-se frisar o que as pessoas com epilepsia
podem fazer, e não as suas limitações.
Limitações
e "Liberações"
Os riscos do paciente
em casa, na escola, no lazer e no trabalho
devem ser identificados à luz do quadro
específico de cada caso. Para a maioria
dos pacientes bem controlados os cuidados
geralmente são mínimos.
Atitudes gerais
como, por exemplo, em relação a bebidas
alcoólicas, devem ser ponderadas com o paciente.
A menos que haja clara relação destas com
as crises, o que é infreqüente, deve-se
liberar bebidas alcoólicas em quantidades
pequenas a moderadas, preferencialmente
bebidas de menor teor alcoólico, como cervejas
e vinhos. A literatura mostra que o uso
de bebidas alcoólicas geralmente não modifica
a freqüência das crises. Por outro lado,
sabe-se que o álcool pode ser um fator de
integração social importante, podendo a
sua proibição vir a limitar a interação
social da pessoa.
Adesão ao Tratamento
Alguns elementos
podem ajudar a adesão ao tratamento medicamentoso
das epilepsias: 1. Utilizar menor número
de tomadas possível para a DAE. 2. Ensinar,
de modo bem claro, os horários em que devem
ser tomadas as medicações. 3. Ajudar os
pacientes com medidas ou "dicas" que facilitem
a lembrança da tomada (refeições, hora do
banho, de fazer a barba e de escovar os
dentes).
As estratégias devem
ser adaptadas individualmente. O reforço
da adesão ao tratamento medicamentoso deve
ser feito em todas as consultas dos pacientes,
particularmente no início do tratamento,
quando o paciente ainda não automatizou
a ingestão das DAEs ou quando ainda não
está plenamente seguro da necessidade do
uso regular da medicação.
A dosagem sérica
da DAE pode ser útil quando há dúvidas sobre
a adesão e pode ajudar a adequar a dosagem
de uma determinada DAE.
O Paciente Otimamente Controlado
A imensa maioria
das pessoas com epilepsia têm, quando corretamente
orientadas, controle satisfatório de suas
crises epilépticas com medicações.
Pacientes otimamente
controlados são os que têm em comum o controle
de suas crises epilépticas, além de terem
também satisfeitas as suas necessidades
básicas, psicológicas e sociais, dentro
de suas expectativas de realização como
indivíduos. Em outros termos, são pacientes
com qualidade de vida em níveis da máxima
excelência possível.
Não se aceita mais,
hoje em dia, apenas o controle medicamentoso,
que era o único alvo do tratamento até alguns
anos atrás. Com a grande disponibilidade
de novas DAEs, procura-se não só o controle
das crises, mas também a maior adaptação
possível ao tratamento, isto é, que o uso
contínuo de medicações cause discreta ou
nenhuma mudança na vida diária da pessoa
com epilepsia.
Não mais podemos
admitir que as pessoas com epilepsia deixem
de desenvolver o seu potencial, seja na
área pessoal, escolar ou profissional.
Assim, a postura
atual adequada é realizar a escolha do medicamento
baseando-se no perfil de eficácia da droga,
diante das indicações para o caso, além
do perfil de efeitos colaterais. Todos esses
dados devem ser discutidos com os pacientes
e seus familiares e a decisão final deve
ser tomada em conjunto. O papel do médico
deve ser o de consultor e não o de “ditador”,
que define o que o indivíduo deve ou não
fazer de sua vida.
Alguns julgam que
o tratamento médico, como o da epilepsia,
é uma arte. Acreditamos que, mais do que
arte, trata-se de um exercício empírico
de tentativas e erros, minimizado pela aprendizagem
da prática médica, pelas pesquisas e pela
literatura disponível.
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